Por telefone, chats pela internet e encontros pessoais, pessoas físicas buscam cada vez mais informações sobre as empresas em que pretendem aplicar seu dinheiro. Por Flavia Lima e Márcio Anaya, de São Paulo
 
Sem medo de parecer insistente ou chato. É assim que se comporta Paulo César Almeida, carioca de 40 anos que não tem nenhum pudor em enviar e-mails, fazer telefonemas ou se manifestar em público quando o que está em jogo é a colheita de informações que ancorem seus investimentos em bolsa. Na verdade, tenho que 'encher o saco' para obter o máximo de informação e sanar minhas dúvidas porque eu não sou do mercado, diz o autônomo, que começou a investir na bolsa bem no meio da crise de 2008, quando as ações, diz ele, estavam baratas.
 
Roberto, um aposentado de 55 anos que prefere não revelar o sobrenome, aplica em ações há mais de 20 anos, mas foi a partir de 2008 que assumiu um comportamento mais proativo. Naquele ano, Roberto decidiu afastar-se dos papéis de grandes companhias, pois não enxergava mais grande potencial de alta, e voltar o foco para empresas pequenas que passam por reestruturações. Daí em diante, resolveu participar das reuniões com investidores, pesquisar a fundo o plano de negócios antes de decidir pelo investimento e fazer até mesmo algo pouco comum a investidores individuais: visitar as empresas que fazem parte de seu radar. Foi assim com a varejista Hering.
 
Hoje, sua aposta é Paranapanema, maior produtora não integrada de cobre refinado, que considera um diamante a ser lapidado. Após acompanhar apresentações da empresa, ler atentamente relatórios de administração e tirar dúvidas, convenceu-se de que a proposta da companhia é interessante. Ela investiu, se modernizou, possui uma participação de mercado importante e não tenho dúvida de que um dia será vendida.
 
O contato de analistas, gestores ou investidores de maior porte com empresas abertas sempre foi mais comum. A disposição do investidor pessoa física em se fazer ouvir é que se mostra cada vez mais evidente - assim como atenção dada a esse público das mais diversas maneiras.
 
As mudanças não têm ocorrido por acaso. Os tempos têm sido difíceis para a bolsa e o investidor que se dispõe a correr o risco anseia por informação de qualidade. A própria bolsa tinha por objetivo inicial alcançar 5 milhões de investidores pessoa física em 2014. Após atingir o teto de quase 631 mil cadastros em setembro de 2010, hoje, o número de contas se encontra ao redor de 572 mil. E, segundo algumas corretoras, a situação seria ainda pior, pois o número de clientes efetivamente ativos estaria ao redor de 140 mil.
 
Na visão dos especialistas, o ingresso do investidor pessoa física é fundamental ao desenvolvimento do mercado. André Rocha, analista do blog O Estrategista, no portal Valor, lembra que esse investidor, em regra, não possui problemas de investir em ações menos líquidas. Logo tende a ser um importante comprador das ações de menor capitalização de mercado (as chamadas small caps).
 
Quanto mais ampla a base acionária, melhor, afirma Alessandra Gadelha, diretora de Relações com Investidores (RI) da Mills, cujo capital social abriga 7% de investidores pessoas físicas, nível considerado baixo pela empresa. Ela ressalta que em uma base acionária muito exposta ao investidor estrangeiro, por exemplo, uma crise pode provocar uma venda maciça de papéis, sem, no entanto, haver relação direta com a realidade operacional daquele grupo.
 
No caso da pessoa física, há os que ficam com o ativo pensando na aposentadoria e aqueles que olham mais o dia a dia. É bom ter ambos, pois eles fortificam a base acionária e dão liquidez às ações, afirma a executiva, eleita a melhor profissional de RI da América Latina no setor de cimento e construção em 2012 pelo chamado 'buy side' (gestores de recursos, fundos de pensão etc), em pesquisa da revista Institutional Investor.
 
Alessandra resume bem o que pensa um número cada vez maior de companhias, que buscam responder a essa demanda por informação de diversas maneiras. Por e-mail, chat, telefone, salas criadas especificamente para isso ou novas ferramentas como Twitter e Facebook. Vale até mesmo promover reuniões individuais pré-agendadas - tudo na esperança de atrair cada vez mais esse investidor.
 
Laurence Beltrão Gomes, diretor de Finanças e RI da Weg, acredita que o investidor individual ajuda a fomentar o giro das ações - se comparado a fundos de longo prazo, por exemplo -, variável fundamental para que uma companhia passe a integrar os principais índices da bolsa. Mais negócios com um volume interessante aumentam a liquidez dos papéis. Isso nos interessa, pois, apesar de sermos grandes em valor de mercado, não estamos no Ibovespa.
 
Rodrigo Lopes da Luz, diretor do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), avalia que, atualmente, nem todas as companhias estão preparadas para atrair mais investidores pessoa física para a base de acionistas, mas acredita que a questão tende a ganhar relevância. Com o cenário atual de juros baixos, os aplicadores devem buscar outras alternativas, mais rentáveis, e podem se aproximar mais do mercado de capitais.
 
Luz, que é também gerente de RI da Eternit, lembra que durante a safra exuberante de lançamentos iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) na bolsa, entre 2004 e 2007, cerca de 70% dos papéis oferecidos foram arrematados por estrangeiros. Todos eles institucionais. Trata-se de um público sofisticado, que demanda muito da área de RI, por isso as companhias precisam estar preparadas.
 
Em algumas empresas, a parcela de investidores de varejo fica em torno de 10%, comenta. O Ibri defende, portanto, um tratamento igualitário. Todas as demandas têm de ser atendidas, afirma Luz. Para isso, diz ele, uma estratégia eficiente é segmentar a comunicação e adequar a linguagem. Não é apropriado falar 'capex' com um investidor individual, pois ele pode não saber o que é. Melhor usar investimentos, exemplifica.
 
O autônomo Almeida concorda. Volta e meia pinta uma dúvida, um termo específico. Atualmente, ele pensa em consultar a área de RI de uma das maiores empresas de produção agrícola do país, a Vanguarda Agro, cujas ações fazem parte da carteira que mantém para o filho. O objetivo é obter mais detalhes sobre um aumento de capital para viabilizar a entrada de um grande fundo.
 
Segundo ele, não é a primeira vez que vai direto à fonte. O investidor já entrou em contato com a AES Tietê e com a Laep. No primeiro caso, foi para sanar dúvidas sobre o pagamento de dividendos e, no segundo, para entender melhor porque perdia tanto dinheiro com o papel. São investidores desse tipo, chatos - como o próprio Almeida se define, em tom de brincadeira -, que têm conquistado espaço no universo de RI e estão sendo acompanhados de perto por um número cada vez mais significativo de companhias abertas.
 
Source: Valor Econômico - BR

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